A mpox, doença causada pelo vírus monkeypox, voltou ao debate público diante da confirmação de novos casos no Brasil e em outros países. Dados do Ministério da Saúde e recomendações da Organização Mundial da Saúde apontam que, embora o surto global registrado em 2022 tenha sido controlado, a doença segue sob monitoramento contínuo das autoridades sanitárias.
✅ Clique aqui para seguir o canal “RJ Info – Noticias do Rio” e receber as notícias no seu WhatsApp!
Para esclarecer dúvidas sobre sintomas, formas de transmissão, diagnóstico e cenário epidemiológico, a virologista Clarissa Damaso, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concedeu entrevista ao Conexão UFRJ. A pesquisadora atua no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho e no Núcleo de Enfrentamento e Estudos de Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes (Needier).
O que é a mpox e quais são os sintomas
Segundo Clarissa Damaso, a doença “é caracterizada pelo surgimento de lesões pustulares pelo corpo ou mais concentradas na região genital, perianal e perioral”. Além das lesões, os pacientes podem apresentar febre, mal-estar, dor de cabeça e adenomegalia (aumento dos gânglios linfáticos).
A especialista explica que o vírus é endêmico em países africanos desde 1970. Até 2022, a circulação estava restrita ao continente africano, com infecções associadas principalmente ao contato com animais reservatórios. A partir daquele ano, houve disseminação para a Europa e, posteriormente, para outros continentes, incluindo o Brasil, que confirmou os primeiros casos em junho de 2022.
Como ocorre a transmissão
De acordo com a pesquisadora, “a transmissão se dá por contato com as lesões de pessoas infectadas ou por inalação de gotículas de saliva de pessoas infectadas e com lesão na cavidade oral”.
Ela destaca ainda que “o contato intenso sexual tem sido o maior meio de transmissão desde 2022”, em razão do contato direto com lesões na região genital e perianal de pessoas infectadas.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico é feito por meio da coleta de material das lesões para análise molecular. “O diagnóstico confirmatório é sempre por testagem molecular (PCR em tempo real ou por sequenciamento do genoma viral), mas a suspeição se dá pelo relato do paciente sobre contato com uma pessoa com mpox e pelo aparecimento de lesões sugestivas da doença”, afirma.
Sobre o tratamento, Damaso explica que o antiviral recomendado é o tecovirimat, cuja disponibilização depende do Ministério da Saúde. A doença pode evoluir para quadros mais graves em pacientes imunossuprimidos, como pessoas vivendo com HIV sem controle terapêutico ou pacientes em tratamento quimioterápico.
Vacinação
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza vacina em situações específicas, tanto na modalidade pré-exposição quanto pós-exposição, seguindo critérios técnicos definidos pelas autoridades de saúde. Entre os grupos contemplados estão pessoas vivendo com HIV com baixa contagem de linfócitos T CD4, profissionais que atuam diretamente com Orthopoxvírus em laboratórios de biossegurança nível 3 e pessoas que tiveram contato direto de alto ou médio risco com casos suspeitos ou confirmados.
Grupos mais vulneráveis
A pesquisadora aponta que a população mais vulnerável inclui homens que fazem sexo com homens, especialmente aqueles com múltiplos parceiros, além de pessoas imunossuprimidas. Ela ressalta, no entanto, que qualquer pessoa pode contrair a doença caso tenha contato com lesões de indivíduos infectados.
“Mpox não é varíola. Os vírus são da mesma família viral, mas são distintos. Varíola não existe mais, é uma doença erradicada. Mpox não é doença de homossexuais. Todas as pessoas podem contrair mpox desde que tenham contato com lesões de pessoas infectadas”, afirma.
Cenário atual no Brasil e no mundo
Segundo Damaso, o número de casos no Brasil permanece relativamente estável desde o fim do surto global de 2022. “Em janeiro e fevereiro de 2025, por exemplo, tivemos 144 e 119 casos respectivamente. Em novembro de 2025, tivemos 46 casos e, em dezembro de 2025, 58 casos. Assim, o Brasil está dentro da flutuação normal do número de casos”, explica.
No cenário internacional, a pesquisadora destaca que há maior concentração de casos em países do centro-leste africano e em Madagascar.
Ela reforça que não há motivo para pânico. “Tivemos um surto global em 2022 quando chegamos a mais de 10 mil casos. Depois, o surto foi controlado e temos números basais de casos todos os meses.”
Vigilância e combate à desinformação
Especialistas ressaltam que a vigilância epidemiológica segue ativa e que a circulação de informações baseadas em evidências científicas é fundamental para evitar desinformação e estigmatização. Medidas simples, como evitar contato direto com lesões suspeitas e procurar atendimento médico diante de sintomas compatíveis, continuam sendo as principais recomendações.